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Pedalando pela Chapada Diamantina

    


Do ouro ao


diamante,


pedalando pela


Chapada Diamantina


Como pedalar na Chapada Diamantina com até mil reais...


Não se trata de nenhum milagre gastar pouco para conhecer a Chapada baiana. Basta combinar uma bike, um roteiro criativo e ônibus. Claro que uma pitada de paciência para agüentar o tempo de viagem também se faz necessário. Mas depois de montada a bike é só festa.


Conversando com uma baiana de Vitória da Conquista, fiquei sabendo que a chapada começa a 150 km ao norte de Conquista e engloba 52 municípios do sertão baiano. Daí foi um passo para descobrir Rio de Contas, uma charmosa cidade do tempo do ouro. Seus moradores alardeiam que a cidade foi a primeira cidade planejada do Brasil. Não fui atrás para confirmar a afirmação, mas a cidade ainda hoje mostra que foi pensada para ser construída. Ficar pela cidade e explorar seu entorno já seria uma viagem e tanto. Cachoeiras, vilas quilombolas e muito mais é o que se pode achar por lá. Mas meu objetivo era chegar ao parque da Chapada, então fiz a promessa de um dia voltar e peguei meu rumo em direção à Mucugê.


Parti de Rio de Contas numa manha de muito sol de janeiro. Sei que foi um pouco de loucura escolher o verão para enfrentar o sertão baiano, mas era o tempo que dispunha e não podia adiar mais conhecer a Bahia, ou parte dela. Primeiro dia é tudo festa, parei a cada esquina para umas fotos e nem me preocupei com o tempo. Na Bahia cada parada sempre demora mais do que planejamos, é impossível ficar cinco minutos parado sem que um baiano puxe um papo divertido e ilustrativo. Ainda mais se você estiver com uma câmera fotográfica na mão. Por estas e outras, peguei a estrada só no meio da manhã com a intenção de almoçar numa vila no meio do caminho e finalizar em Jussiape a 41 km de Rio de contas.


Era um primeiro dia maneiro pra ir esquentando. Apesar de o caminho ser tranqüilo o ritmo foi lento. Uma serrinha que além de demandar muita perna exibia um visual que interrompia a toda hora minha "concentração". Aí era parar fotografar e recomeçar. O tempo foi passando e a fome chegou antes da cidade. E que fome. Fui controlando até que não deu mais. Parei para um lanchinho estratégico, mas a dita era tanta que chegou as raias de hipoglicemia. Foi aí que me dei conta que estava estacionado ao lado de umas mangueiras. Ao alcance da mão pelotinhas amarelas da variedade coquinho (para paulistas). Foi como injetar açúcar na veia. Sabe aqueles saquinhos de carboidrato, então, perdem feio paras mangas coquinho da Bahia. Com duas doses recuperei toda energia para chegar ao almoço.


Cerca de 50 min depois cheguei onde pretendia almoçar, era meio da tarde. Já não tinha muita fome na hora, mas mesmo assim pedi um PF num barzinho que atendia viajante. Foi um banquete. O cara me entupiu de bife, arroz e feijão. Precisei de mais meia hora pra desbaratar o sono e retomar a estrada.

A média que fazemos em cicloturismo é de cerca e 10 a 13 km/h, mas neste primeiro dia estava mais lento que tartaruga. Levei pouco mais de duas horas para finalizar o primeiro dia restando apenas mais 14 km. Cheguei a Jussiape e depois de rodar um pouco a cidade achei a pousada de um entusiasta da Chapada. Ele, jornalista, edita um revista sobre a chapada, ela atende viajantes e turistas fugidos das rotas batidas e ultra-comercializadas.


Depois de um banho resolvi ir atrás de uma água de coco e de mantimentos que me ajudassem a manter o ritmo no durante a pedalada. Encontrei apenas uns tomates. Mercado? O que tinha já havia fechado de velho. Mas o coco, ah o coco. Caiu como uma benção. Nada daquelas maquininhas que gelam a água só. A pelota toda fica numa geladeira e saem de lá pra levantar a alma de qualquer um. Ao preço de um real recebi o coco com a desculpa de que estava pequeno demais e com a recomendação de que se não extraísse um gole descente daquele exemplar devia avisar para receber outro. Adivinha: "moço, deu só dois golinhos!”. Recebi outro para armazenar energia par ao dia seguinte. Mas o coco realmente tinha pouca água. Juro!



Tinha uma serra no meio do caminho

Saindo de Jussiape, meu destino passava a ser Mucugê passando por Brejo de Cima. Estava usando o relato de Nathanael Pinheiro como base, só que em sentido contrário. Por isso sabia que teria uma subida razoável para chegar a Brejo de Cima. Por isso mesmo havia planejado uma parada neste lugarejo para cortar o trecho até a Flor da Chapada em duas partes. Toda vez que contava meu roteiro, assistia os olhos dos meus interlocutores darem uma arregalada. E logo em seguida vinham os alertas com a subida que teria a frente. O tamanho da tenebrosa variava de acordo com a cor do cabelo de cada baiano que resolvia me alertar do que teria pela frente. Foi de 8 a 18 quilômetros. Quanto mais aumentava a subida, mais eu a dividia para manter minha mente focada em continuar. E assim, saí de Jussiape com um objetivo de 30 km e uma rampa dividida em 18 vezes.


 Saindo da minha bati-umbú-caverna logo achei a entrada para o Brejo e a tão esperada serra de tamanho variável. De cara percebi que teria que engordar meu carnê e dividir a empreita a perder de vista. A vista alcançava uns dois quilômetros em ascendência constante e bem forte. Respirei fundo e pedalei, pedalei, pedalei. Meu progresso foi lento, árduo e extenuante. No fim, essa rampa não passou de 3 km. Até que poderia ir além, o restante da serra é bem mais amistoso e, com apenas, mais 5 km, mas Brejo de Cima é um lugar que merece uma parada. Não por seus dotes turísticos, mas pelas pessoas que lá moram. Fui acolhido de forma calorosa por pessoas que nunca vi na vida. Tomei um banho maravilhoso no banheiro emprestado pelo senhor José. Dividi uma cerveja com meu anfitrião e mais um amigo na padaria do Manoel e jantei coxinhas. No dia seguinte, estava completamente renovado com minha conquista da serra e com meus novos amigos. Tudo ficou mais leve e zarpei em direção á Mucugê.



A Flor da Chapada

Mucugê é a porta sul para o parque Nacional da Chapada Diamantina. Com uma arquitetura do século 18 ainda muito bem conservada, ela serve de base para muitas aventuras pela região. Fica perto de muitas cachoeiras e atrativos que podem ser visitadas em pedaladas de um dia.



Ela foi minha cidade de chegada. Montei a barraca num camping da cidade por cinco reais o dia e passei a pedalar sem carga pelas redondezas. A idéia era segui até Lençóis, mas descobri que estando por lá, seria melhor sair por Salvador, o que encareceria a viagem. Então aproveitei para curtir melhor o local e acabei descobrindo uma pista de donwhill maravilhosa construída pelos tropeiros há muito tempo.



Mucugê foi o local onde se primeiro achou diamante na região e por lá passa a estrada real que era usada para escoar a produção. A estrada como um todo não existe mais, mas um trecho que sai de uma pedreira perto da antena de telefone que fica a beira da estrada que leva ao norte é algo maravilhoso para descer até a cidade de Igatú. Essa cidade, por sinal, não deve ser deixada de lado em hipótese alguma. Bom, mas voltado à descida, foram duas horas por uma trilha montada com pedras chatas que facilitavam a subida das mulas rumo ao sul. Indo em sentido contrário, é uma festa para quem gosta de descidas mais nervosas e emocionantes.


Outro local que com bike é muito mais fácil de ir é a cachoeira que fica numa estrada que sai próximo ao museu da flor da chapada, só que do lado oposto. De carro, você tem que deixá-lo a 3 km da cachoeira, de 4x4 custa caro. De bike é uma festa.

Há ainda o poço encantado, que exige um pouco mais de gás para se chegar e outras trilhas ao sul da cidade que levam as margens do rio. Por ali começa uma trilha que leva ao interior do parque, mas é preciso de um guia para saber exatamente aonde ir. Mesmo que você queira apenas dar um passeio por lá, tome cuidado. Leve bússola ou se puder um GPS. A vegetação confunde muito. E também vá protegido, essa mesma vegetação machuca na passagem de bike.



Parque Nacional da Chapada Diamantina

Como disse anteriormente, a cidade pode ser o ponto de partida para conhecer o parque todo. O Custo da viagem de ônibus de Conquista a Mucuge é praticamente o mesmo que à Rio de Contas. Portando, se objetivo é o parque nacional da Chapada Diamantina, comece por ali. E possível contornar todo o parque de bicicleta em no máximo 10 dias de viagem. Caso não tenha tanto tempo, comece por Igatú e vá subindo. Em três dias você estará em Lençóis e de lá poderá continuar contornando o parque ou retornar a Mucugê. Atravessar o parque de bike com carga é praticamente impossível. Há trechos onde a bike tem que ser carregada. Mesmo a trilha de Mucugê a Lençóis requer algum esforço braçal. Se a opção for estrada rural, o lado contrario do parque é o indicado. Uma estrada de terra começa ao sul da cidade onde os paredões da chapada impressionam, e leva até a estrada que passa ao norte do parque dando acesso a Lençóis.


 


(Fonte: Onde Pedalar)


 




Itana Mangieri

Praticante de Trilhas em diversos grupos no Brasil.
E-mail: itanamangieri@gmail.com
22/05/2008 - 10:13